terça-feira, 8 de maio de 2012

A pele que habitamos


Foto: Reprodução

 por Gabriella Justo

    Richard Ledgard (Antonio Banderas) é um cirurgião plástico que perdeu sua mulher queimada em um trágico acidente de carro. Com isso, ele resolveu criar uma “pele perfeita” – que poderia tê-la salvado – através da transgênese, passando por cima de questões éticas. Vera (Elena Ayala) ao que tudo indica é uma paciente que aceitou servir de cobaia para esse novo experimento.
    Lendo a sinopse de “A pele que habito”, parece apenas se tratar de mais uma história de médico louco e sua cobaia, como o famoso filme “Frankenstein”. Porém, Almodóvar consegue transformar essa simples história em muito mais que um thriller. Cercado pelo suspense e pelo drama, o espectador termina de assistir ao filme e permanece com um sentimento angustiante, um mal-estar dentro de si. “E agora?”
    Baseado no livro “Tarantula” de Thierry Jonquet, o filme trata de questões características do diretor, como a traição, a solidão, a identidade sexual e a morte. Ele traz em discussão a eterna tentativa do homem em superar a morte através das cada vez mais evoluídas ciência e tecnologia.
    Porém, o que realmente nos deixa chocados é o personagem Vera. No inicio, a ideia de uma simples mulher capaz de aceitar tudo pela estética, no fim um ser moldado pela crueldade e perversidade de um homem. Moldada e construída a partir de Vicente, ela nos remete à questão do corpo sexuado, ao transexual. Como viver em um ‘corpo’ que não te faz sentir você? Ao assistir ao filme, passei a pensar de uma maneira diferente à respeito dessa questão.Se uma pessoa realmente não consegue sentir que é ela mesma, tem todo o direito de mudar o seu eu exterior para adaptá-lo ao seu eu interior. Essa é uma questão muito falada neste século considerado moderno, mas pouco pensada.
    Na crítica de Luiz Zanin sobre o filme, ele narra um mito grego do ser andrógino. Esse ser representa a origem dos sexos, que quando dividido originou o masculino e o feminino. Porém, um sentimento de nostalgia encontrado no inconsciente humano, muitas vezes une esses dois lados. Vera representa essa androginia.
    Richard também é ligado a mitologia. Sua criação, a pele sintética, é chamada por ele de Gal, devido ao nome de sua esposa. Esse nome é um apelido para Galateia, que na mitologia era uma estátua feita por Pigmalião em homenagem a Afrodite, para que ele pudesse encontrar alguém para amar. Porém, ele acabou se apaixonando pela estátua, o que fez com que Afrodite, tocada pela dor do escultor, desse vida a ela. No filme, ele molda Vera de acordo com as características de sua esposa, e em uma das cenas pede para que ela jamais o abandone. O criador se apaixona pela sua cria!
    No filme, o controle do tempo cinematográfico, do espaço cênico e sobre o potêncial dos atores está nas mãos do diretor. Em uma mesma cena se é capaz de sentir uma mistura de sentimentos e de gêneros totalmente diversos. Essa é a maneira como Almodóvar  vê a vida, mesclada de humor, drama, momentos de profunda tristeza e outros de pleno amor. É um filme imperdível, muito bem estruturado e contado. De alguma maneira ele te tocará!   







Um comentário:

  1. Dona Gabriela, a senhora sabe q mandou muito bem nessa matéria né? Muitoooo bom, me arrependo de não ter visto antes

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