terça-feira, 1 de maio de 2012

O Mais Surdo dos Mitos

por Nina Franco

foto: Reprodução

“Eu falo
Tu não escutais
Ele Fala
Nós não escutamos
 Vós Falais
Eles não escutam.
Assim nasce à concordância”

Enquanto não chegar aos meus ouvidos, sua voz pode ecoar os mais absurdos dos ditos. Tudo pode, e viva a democracia, em um país onde o tudo é a obrigação. A Liberdade por aqui é só mais um presente de grego e assim como a maioria daquilo que veio da Grécia é mito, é um tipo de Deusa irresistível e inatingível.

Sendo os deuses seres de almas tão humanas quanto a nossa e ainda por cima portadores de poderes divinos (o verdadeiro perigo), logo podemos supor que a liberdade é um “abacaxi” mesmo antes de a Grécia ser antiga. Atena, Minerva, Àrtemis, Hera – que devem ter formando o primeiro grupo feminista da história – todas essas são conhecidas por lutar por tal direito, se conseguiram não sei, mas todas se meteram e “boicotaram” a liberdade alheia com muita dedicação.

Alias a briga no Olimpo por liberdade deve ter sido tão intensa que Zeus em sua eterna sabedoria nem ousou dar esse poder a um só deus, é só jogar no Google para perceber que o deus da liberdade mora em todos os deuses. Por mais que  em seus mitos, os princípios de liberdade se mostrem míticos.

 
         E nós por aqui, desprovidos de qualquer poder, continuamos lutando pelo poder do ir e vir e mais intensamente pelo da voz. Exigimos e clamamos a “Liberdade de expressão” com o romantismo que não nos cabe mais em tempos de sonhos aniquilados pelas nossas próprias contradições. Temos usado ingenuamente métodos antiquados, nos revoltado contra os nossos próprios ideais e julgando enquanto brigamos pelo não julgamento. Como deuses traídos pelos próprios princípios.

 Eu particularmente não entendo como tentamos jogar incessantemente com as peças erradas. Colocamos no mesmo tabuleiro dois opostos que se exterminam concomitantemente: Liberdade x Limite - são antíteses, são opostos, não se completam – já deveríamos saber.

Erguemos bandeiras, exigimos que o outro se cale, em favor do nosso grito, nos fragmentamos quanto nação e acreditamos que assim exterminaremos as diferenças. Intitulamos, rotulamos, usamos termos como: maioria e minoria, rico e pobre, hetero e homo, fraco e forte, negro e branco, homem e mulher enquanto já aceitamos a inexistência do referente real do signo sociedade.

Estamos cada dia mais grupais – em uma coletividade (se o termo é possível) que prega a união. Mais conservadores – em tempos apelidados de “qualquer coisa com modernidade no final”. Mais individualistas – mesmo sabendo que não é assim que a força se faz.

Não há luta, há a guerra não declarada – pois onde vivemos declarar ultrapassa o permitido e resulta em artigo VI do código penal, em indenização, em cadeia, em debate na assembléia e na TV. Não se pode dizer além do estipulado e mesmo assim não vivemos em estado de paz.

         A liberdade de expressão como tantas outras gregas, como a justiça, a igualdade e a mãe de todas, a democracia morrem na nossa intolerância. Não as conhecemos e agimos como se  nos fossem princípios enraizados. Erramos! O preconceito e a intolerância não passam de disputas por palavras. Não estamos prontos enquanto não possuirmos o dom de escutar, aprendermos a arte de aceitar ou apenas entender que o grito do outro é direito constitucional, mesmo quando soa estranho ao meu, ao o seu, ao nosso grito.

         Devemos parar de procurar lados, de nos mobilizarmos em debates que apenas procuram destruir a idéia oposta, deixar o vicio “anti-pragmático” e focarmos em consolidar e construir caminhos paralelos e possíveis, mesmo em divergências de trajeto. Só seremos inteiramente livres para dizer quando a liberdade deixar de ser a prima boa e surda, da incompreensão e  sim a deusa a imperar no nosso Olimpo.

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