quarta-feira, 16 de maio de 2012

Quando o exagero vira regra


Por Marcela Millan

Luzes escassas, música lenta, beijos sôfregos, desejo, corpos bem delineados em uma cama. As cenas de sexo na televisão estão, a cada dia, tornando-se mais uma figura comum. Antes restrita à horários dirigidos ao público adulto, hoje parecem estar presentes a cada minuto, desde a sessão da tarde e novelas, até os filmes mais quentes de canais fechados. Irrestrita, a nudez aparece como uma maneira de conseguir Ibope, não se preocupando com as consequências que isso pode acarretar.
São raras as novelas que, em algum momento, não apelam para cenas mais íntimas do casal. Hoje, o estranho configura-se no não mostrar indícios do ato sexual, ou até ele próprio. É inegável que tais cenas prendem o espectador, que se envolve com o enredo e romance. Mas parece que as emissoras de televisão esqueceram-se que há uma parcela do público que não deveria ser exposta a esse tipo de material tão precocemente – a infantil. A novela talvez seja o principal problema, uma vez que é comumente assistida por famílias inteiras, como uma forma de lazer e descanso. Bombardeadas por realidades do mundo adulto, as crianças começam a tomar contato muito cedo com a sexualidade, podendo, por vezes, chocarem-se ou se deixarem influenciar.


A nudez é algo natural. Deve gerar conversas boas sobre nossos corpos, diferença entre as pessoas e entre os sexos, que devem ser aproveitadas pelos pais ou outros adultos que estiverem com as crianças”, comenta Elza Montoro, psicóloga.  “Quando essas cenas de nudez tornam-se sensuais, acredito que a TV já ultrapassou dos limites do aceitável e isto é prejudicial. Isso antecipa para as crianças assuntos que elas nem têm alcance no momento ou que ainda não despertaram para tal.”
 Causando polêmica em sua segunda temporada, a série Game of Thrones, originária de um livro homônimo, foi proibida de ser exibida, por exemplo, em um canal da emissora Unidos Árabes. Alegava-se que o conteúdo sexual exibido, principalmente no primeiro episódio, era inadequado para o horário. As cenas de nudez, que deveriam ser secundárias na trama, mostraram-se predominantes, o que desagradou muitos telespectadores. “Não censurar é uma coisa” – comenta Letícia, 18 – “Achei até legal ver que as partes de sexo que havia no livro realmente foram retratadas. O problema é que eles estão exagerando. ”

Bem como as novelas e séries, as propagandas atuais parecem encontrar na sensualização um bom meio de venda. Até mesmo produtos que não estão intimamente ligados com o cuidado com o corpo acabam trazendo imagens de belas mulheres, às vezes seminuas, outras até mesmo em um nu artístico – que, de qualquer forma, não deixa de ser nu. Expondo-se a qualquer horário, aparecem sem aviso prévio e invadem o mundo infantil, chegando a erotiza-lo.
Em março desse ano, o Ministério da Justiça lançou uma cartilha sobre a classificação indicativa de programas e filmes. Fazendo parte da campanha “Não se Engane”, ela permite que cenas de nudez sem apelo sexual sejam exibidas com classificação livre. Anteriormente, em 2009, já era considerado livre a exibição de imagens contendo nudez artística, de cunho científico ou cultural. No texto, tem-se: o item "Carícias sexuais" não é recomendado para menores de 12 anos e o "relações sexuais intensas" não é recomendado para menores de 16. O Ministério destaca que o objetivo da classificação indicativa é preservar as crianças e não censurar as obras.
Há, então, uma nova questão. Designar uma classificação indicativa de uma obra não é, necessariamente, resolver o problema. Anunciando antes de um filme que ele é proibido para menores, a emissora lança para os pais a responsabilidade de fiscalizar os filhos, isentando-se de qualquer culpa. Com isso, continuam exibindo materiais restritos em horários que se sabe que crianças estão em casa – principalmente o período da tarde – ganhando audiência, visando o lucro e, por vezes, estimulando a irreverência sexual, o sensualismo exacerbado.
Valer-se da liberdade de expressão e imprensa é uma coisa; abusar é outra. Movida pelo capitalismo, a televisão parece ter perdido o bom senso, preferindo exibir materiais proibidos para menores em horários impróprios em prol do lucro. A pergunta que fica é: até quando o exagero será a regra…?

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