Por Marcela Millan
Luzes
escassas, música lenta, beijos sôfregos, desejo, corpos bem delineados em uma
cama. As cenas de sexo na televisão estão, a cada dia, tornando-se mais uma
figura comum. Antes restrita à horários dirigidos ao público adulto, hoje
parecem estar presentes a cada minuto, desde a sessão da tarde e novelas, até
os filmes mais quentes de canais fechados. Irrestrita, a nudez aparece como uma
maneira de conseguir Ibope, não se preocupando com as consequências que isso
pode acarretar.
São raras as
novelas que, em algum momento, não apelam para cenas mais íntimas do casal.
Hoje, o estranho configura-se no não
mostrar indícios do ato sexual, ou até ele próprio. É inegável que tais
cenas prendem o espectador, que se envolve com o enredo e romance. Mas parece que
as emissoras de televisão esqueceram-se que há uma parcela do público que não
deveria ser exposta a esse tipo de material tão precocemente – a infantil. A
novela talvez seja o principal problema, uma vez que é comumente assistida por
famílias inteiras, como uma forma de lazer e descanso. Bombardeadas por
realidades do mundo adulto, as crianças começam a tomar contato muito cedo com
a sexualidade, podendo, por vezes, chocarem-se ou se deixarem influenciar.
“A nudez é algo natural. Deve gerar
conversas boas sobre nossos corpos, diferença entre as pessoas e entre os
sexos, que devem ser aproveitadas pelos pais ou outros adultos que estiverem
com as crianças”, comenta Elza Montoro, psicóloga. “Quando essas cenas de nudez tornam-se sensuais, acredito
que a TV já ultrapassou dos limites do aceitável e isto é prejudicial. Isso
antecipa para as crianças assuntos que elas nem têm alcance no momento ou que
ainda não despertaram para tal.”
Bem como as novelas e séries, as propagandas
atuais parecem encontrar na sensualização um bom meio de venda. Até mesmo
produtos que não estão intimamente ligados com o cuidado com o corpo acabam
trazendo imagens de belas mulheres, às vezes seminuas, outras até mesmo em um
nu artístico – que, de qualquer forma, não deixa de ser nu. Expondo-se a qualquer
horário, aparecem sem aviso prévio e invadem o mundo infantil, chegando a
erotiza-lo.
Em março desse ano, o Ministério da Justiça
lançou uma cartilha sobre a classificação indicativa de programas e filmes.
Fazendo parte da campanha “Não se Engane”, ela permite que cenas de nudez sem
apelo sexual sejam exibidas com classificação livre. Anteriormente, em 2009, já
era considerado livre a exibição de imagens contendo nudez artística, de cunho
científico ou cultural. No texto, tem-se: o item "Carícias sexuais"
não é recomendado para menores de 12 anos e o "relações sexuais
intensas" não é recomendado para menores de 16. O Ministério destaca que o
objetivo da classificação indicativa é preservar as crianças e não censurar as
obras.
Há, então, uma nova questão. Designar uma
classificação indicativa de uma obra não é, necessariamente, resolver o
problema. Anunciando antes de um filme que ele é proibido para menores, a
emissora lança para os pais a responsabilidade de fiscalizar os filhos,
isentando-se de qualquer culpa. Com isso, continuam exibindo materiais
restritos em horários que se sabe que crianças estão em casa – principalmente o
período da tarde – ganhando audiência, visando o lucro e, por vezes,
estimulando a irreverência sexual, o sensualismo exacerbado.
Valer-se da liberdade de expressão e imprensa
é uma coisa; abusar é outra. Movida pelo capitalismo, a televisão parece ter
perdido o bom senso, preferindo exibir materiais proibidos para menores em
horários impróprios em prol do lucro. A pergunta que fica é: até quando o
exagero será a regra…?


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