quinta-feira, 3 de maio de 2012

Jorge, o Amado



Exposição "Jorge Amado e Universal" - Foto: Nina Franco
por Gabriella Justo

“Só o conhecimento vivido, o conhecimento de dentro para fora, aquele que não é aprendido nos livros nem na fria observação do fino repórter de faro infalível, só aquele conhecimento que se viveu dia a dia, minuto a minuto, no erro e no acerto (...) possibilita a criação!” – Jorge Amado

    Neste ano, é celebrado o centenário de nascimento de um dos escritores mais marcante na literatura moderna brasileira. Conhecido mundialmente por suas obras, Jorge Amado foi muito mais que um simples escritor. Em suas histórias, denúnciou os problemas socias do país e ao mesmo tempo exaltou a cultura nacional e o paraíso que era e ainda é sua Bahia.
    Suas histórias prendem a atenção. Seus personagens por mais “vilões” que possam ser interpretados pela sociedade, acabam se tornando os mocinhos. Como é o caso do estupro cometido por Pedro Bala em Capitães da Areia, onde o garoto se preocupa em não desvirginar a menina  e após o ato a leva para casa “pra um malandro não te pegar”, segundo ele. Os temas constantes em suas obras são os problemas e injustiças sociais, o folclore, a política, o adultério, crenças e tradições, além da sensualidade do povo brasileiro.
    Além disso, ele teve papel de destaque no cenário político brasileiro. Comunista convicto, foi deputado federal em 1946, onde uma de suas façanhas foi ter conseguido aprovar a lei, de sua autoria, que garante a liberdade de culto no Brasil. Devido a sua forma de escrita e sua tendência política, viveu exilado na Argentina, no Uruguai, em Paris e em Praga, o que o aprimorou como escritor.
    Para marcar essa comemoração, a Grapiúna e a Fundação Casa de Jorge Amado, em parceria com a Secretário de Cultura do Governo de São Paulo e o Museu da Língua Portuguesa montaram uma exposição em sua homenagem. A mostra é dividida em 6 módulos diversos, onde cada um representa um aspecto marcante do escritor, que instigam o visitante a querer saber mais ao fim da visitação.
Fitinhas com o nome dos personagens - Foto: Nina Franco
    O primeiro módulo é dedicado à 9 de seus mais de 5.000 personagens. São eles Gabriela (Gabriela, Cravo e Canela - 1958), Dona Flor (Dona Flor e seus dois Maridos - 1966), Os capitães da areia (Capitães da Areia – 1937), Pedro Arcanjo (Tenda dos milagres – 1969), Antonio Balduíno (Jubiabá – 1935), Guma e Lívia (Mar Morto – 1936), O menino Grapiúna (O menino grapiúna – 1981), Santa Bárbara (O sumiço da Santa – 1988) e Quincas (A morte de Quincas Berro d’Água – 1961). Nessa área encontram-se materiais audiovisuais que contextualizam e introduzem o universo ficcional do autor, além de milhares de fitinhas grudadas na parede, parecidas com as do Senhor do Bonfim, com nomes de personagens fictícios (por exemplo Tieta, do livro Tieta do Agreste – 1977) e reais inseridos em algumas de suas obras (por exemplo Hitler).

Vida política - Foto: Nina Franco
    No segundo, a vida política do autor. Jornais com notícias a respeito de sua candidatura e seu mandato ou sobre o comunismo no mundo enfeitam este módulo. Já no terceiro ambiente, o destaque é dado a miscigenação brasileira, através das colorações dadas pela população quando questionada a respeito de sua etnia em uma pesquisa realizada em 1976; e ao sincretismo religioso. O quarto retrata a malandragem e a sensualidade presentes nas obras, por meio de rachaduras abertas nas paredes com trechos de livros. 
Colorações sugeridas pela população - Foto: Nina Franco
    No módulo seguinte a Bahia é mostrada da maneira vista por Jorge Amado, com suas belezas e seus defeitos. Quadros com fotos das praias, dos monumentos, da população, das comidas típicas ilustram este ambiente, além das garrafas de dendê, típicas do estado, do mar e do cacau que aparecem de maneira inusitada no local. O sexto e último módulo traz objetos pessoais do autor, documentos, diplomas, correspondências, fotografias e suas camisas floridas.  Há ainda um espaço com depoimentos de amigos, artistas, críticos, anônimos, com destaque para os de sua esposa Zélia Gattai e de sua filha Paloma Amado que contam o processo de criação de Jorge Amado.Uma entre tantas curiosidades contadas por sua mulher, é o fato de que os personagens “mandavam”  no escritor. Ela conta que por exemplo em Dona Flor, o autor queria que ela fosse embora com Vadinho, mas a personagem “decidiu” ficar com os dois maridos na Terra.
    Na área final encontram-se edições de livros traduzidos em mais de 49 idiomas e dialetos, e publicados em diversos países.
    A exposição está maravilhosa, muito bem montada e cheia de atrativos que atraiem público de diversas idades. Ela também é uma maneira de incentivar a leitura em um país onde os livros estão cada vez mais sendo deixados de lado, e a valorizar a literatura brasileira que por muitas vezes é esquecida por nós. O visitante sai com vontade de ler as obras e saber um pouco mais da história desse personagem brasileiro, que foi Jorge Amado.
    A mostra ficará em São Paulo, no Museu de Língua Portuguesa, até o dia 22 de julho, seguindo posteriormente para o Museu de Arte Moderna da Bahia, em Salvador. Os ingressos custam R$6,00 (estudantes, professores, aposentados e crianças até 10 anos pagam meia-entrada) e aos sábados a entrada é gratuita. Vale a pena conferir a exposição fixa do museu!

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