![]() |
| Foto: Reprodução |
por Gabriella Justo
Richard Ledgard (Antonio Banderas) é um cirurgião plástico que perdeu sua mulher queimada em um trágico acidente
de carro. Com isso, ele resolveu criar uma “pele perfeita” – que poderia tê-la
salvado – através da transgênese, passando por cima de questões éticas. Vera (Elena
Ayala) ao que tudo indica é uma paciente que aceitou servir de cobaia para esse
novo experimento.
Lendo a sinopse de “A pele que habito”, parece apenas se tratar de mais
uma história de médico louco e sua cobaia, como o famoso filme “Frankenstein”.
Porém, Almodóvar consegue transformar essa simples história em muito mais que
um thriller. Cercado pelo suspense e pelo drama, o espectador termina de
assistir ao filme e permanece com um sentimento angustiante, um mal-estar dentro
de si. “E agora?”
Baseado no livro “Tarantula” de Thierry Jonquet, o filme trata de questões
características do diretor, como a traição, a solidão, a identidade sexual e a
morte. Ele traz em discussão a eterna tentativa do homem em superar a morte
através das cada vez mais evoluídas ciência e tecnologia.
Porém, o que realmente nos deixa chocados é o personagem Vera. No
inicio, a ideia de uma simples mulher capaz de aceitar tudo pela estética, no
fim um ser moldado pela crueldade e perversidade de um homem. Moldada e
construída a partir de Vicente, ela nos remete à questão do corpo sexuado, ao
transexual. Como viver em um ‘corpo’ que não te faz sentir você? Ao assistir ao
filme, passei a pensar de uma maneira diferente à respeito dessa questão.Se uma
pessoa realmente não consegue sentir que é ela mesma, tem todo o direito de mudar
o seu eu exterior para adaptá-lo ao seu eu interior. Essa é uma questão muito
falada neste século considerado moderno, mas pouco pensada.
Na crítica de Luiz Zanin sobre o filme, ele narra um mito grego do ser
andrógino. Esse ser representa a origem dos sexos, que quando dividido originou
o masculino e o feminino. Porém, um sentimento de nostalgia encontrado no
inconsciente humano, muitas vezes une esses dois lados. Vera representa essa
androginia.
Richard também é ligado a mitologia. Sua criação, a pele sintética, é
chamada por ele de Gal, devido ao nome de sua esposa. Esse nome é um apelido
para Galateia, que na mitologia era uma estátua feita por Pigmalião em
homenagem a Afrodite, para que ele pudesse encontrar alguém para amar. Porém,
ele acabou se apaixonando pela estátua, o que fez com que Afrodite, tocada pela
dor do escultor, desse vida a ela. No filme, ele molda Vera de acordo com as
características de sua esposa, e em uma das cenas pede para que ela jamais o
abandone. O criador se apaixona pela sua cria!
No filme, o controle do tempo
cinematográfico, do espaço cênico e sobre o potêncial dos atores está nas mãos
do diretor. Em uma mesma cena se é capaz de sentir uma mistura de sentimentos e
de gêneros totalmente diversos. Essa é a maneira como Almodóvar vê a vida, mesclada de humor, drama, momentos
de profunda tristeza e outros de pleno amor. É um filme imperdível, muito bem
estruturado e contado. De alguma maneira ele te tocará!

Dona Gabriela, a senhora sabe q mandou muito bem nessa matéria né? Muitoooo bom, me arrependo de não ter visto antes
ResponderExcluir