sexta-feira, 25 de maio de 2012

O Papel da Sorte

Por Marcela Millan


Foto: Reprodução

Vou contar-lhes um fato engraçado, que eu aposto que muitos de vocês vão concordar ou se identificar: de todo ritual de ir comer - ou, atualmente, pedir - comida chinesa, a parte que mais amo e me divirto é o momento de quebrar o biscoitinho da sorte. É, aquele mesmo, típico de filme, que as metades se separam com um TEC e que, dentro, você encontra um papel com uma mensagenzinha engraçada (uma pena que, ao lê-la, toda aquela mudança de corpos a la Sexta Feira Muito Louca não aconteça). Já me peguei discutindo por horas e horas seguidas sobre esse acontecimento tão idiota, e, ao mesmo tempo, tão interessante. Fascina-me ver como um simples pedaço de papel pode, por vezes, servir como uma super-e-completa visita ao psicologo. Ou qualquer coisa assim. Deixe eu explicar.
Imagine que você recebeu um fora recentemente, e todo aquele sentimento de revolta ainda toma conta de você. Depois daquela costumeira cascata de choro e mimimis, das famosas frases de autopunimento apocalipticas sobre "nunca mais vou me sentir completo”, alguém – provavelmente um amigo cansado de ver sua depressão exagerada e melodramatica – resolve levá-lo à um restaurante. E lá – oh, meu deus! – você recebe um biscoitinho da sorte. Com um sorriso meio triste, desenrola o papelzinho e eis que surge a frase “lamentar aquilo que não temos é desperdiçar aquilo que já possuimos”. Seus olhos passam pela frase uma, duas, três vezes. E você acaba concordando com ela, surpreendendo-se até mesmo com o modo como ela se encaixa perfeitamente em sua situação atual. Porque, apesar de ter acabado de perder um parceiro, há muitas outras pessoas e coisas a sua volta para lhe trazer alegria e conforto. E o namorado… Pff, quem é ele, por sinal!? Só uma pessoinha insignificante que passou por sua vida. Nada demais. Então, com isso em mente, você sai do restaurante, muito mais confiante do que o momento em que entrou. Mal sabe que, na mesa ao lado, um grupo de meninas acabou de tirar o mesmo papelzinho – porque, sinto informar, existe mais de um biscoito com a mesma frase – e que a interpretação que elas fazem é algo completamente diferente da sua.
Acho engraçado essa capacidade de adaptação que as frases do biscoito da sorte possuem. Talvez por serem tão genéricas, ou então completamente metafóricas – tipo “não tente tirar a lua do fundo do mar”, o que isso quer dizer!? - elas se encaixam perfeitamente em qualquer estado de espirito humano. Pergunto-me frequentemente quem que escreve todas as frases - uma senhora viciada em livro de auto-ajuda ou um jornalista fracassado com o auxilio de sites com frases de efeito? Não importa. O que me inquieta é ver que todas as pessoas ainda ficam felizes por acharem que se identificar com as mensagens é obra do destino – não que eu não sinta isso também, o pior é que sinto. Mas vamos pensar. “Lamentar aquilo que não temos é desperdiçar aquilo que já possuimos”. Ao meu ver, qualquer pessoa do mundo tem alguma preocupação na vida, seja no campo amoroso, nos negócios ou até mesmo aparência. E, reparem! Qualquer um desses campos pode se ver refletido na frase do biscoitinho. Se identificar é inevitável.
Provavelmente nunca vou deixar de me intrigar – e me divertir! – ao observar o semblante de todos ao receber em mãos o tão famoso biscoito da sorte. A influência dele na vida das pessoas é algo muito engraçado – até porque, mesmo sabendo da universalidade daquelas suas frases, não conseguimos (claro que estou incluída) deixar de nos animarmos ou refletirmos com o que lemos. Bem, e se por acaso isso um dia acontecer… ainda nos resta o horóscopo.

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