segunda-feira, 11 de junho de 2012

Um grito sem voz

Por Marcela Millan



Todos sabiam que não havia como salva-lo. O sangue escorria e manchava tudo. A mão daquela mulher... Ela já estava totalmente molhada em vermelho, mas, mesmo assim, era firme ao segurar o senhor em seus braços. Não podia deixá-lo. Não. Não quando faltava tão pouco - e ela sabia que faltava pouco.
Os tiros vieram do nada. Bala perdida. E o irônico é que até mesmo ela sabia: a culpa recairia sobre seus iguais. Sua "raça". Seu tipo inferior de ser. E, talvez pior fosse o fato de que os culpados não eram, nem de perto, eles, pobres que simplesmente lutavam para sobreviver. Mas sempre precisa-se de alguém para culpar. Nada melhor do que um bando de desocupados, não é?! Pois é...
Seu amor morria em seus braços e não havia nada que ela pudesse fazer. A mulher jurava ouvir risos... risos de um policial que, diferentemente dos outros, não se contentava em apenas fazer seu trabalho. Ela conseguia ver a alegria tingindo seus olhos ao maltratar. Abusar. Usar do poder para... acabar com tudo. Sinceramente? O que tomava sua boca era asco, um nojo incontrolável daquelas pessoas, que se diziam justiceiras e que não hesitavam em atirar em um grupo que estava somente tentando sobreviver. Cruel... Mas imutável. Agora, pior mesmo era ela saber que seus gritos de desespero nunca seriam ouvidos. Ela morreria. E morreria como anônima.
-Eu estou morrendo.
A voz do homem soou, em algum momento, como um eco de seus pensamentos. Ninguém conseguiu negar... Ninguém podia negar, até porque era um fato óbvio. Apertando-o contra seu corpo, a mulher não percebeu como aquilo podia ser doloroso. Ela só queria senti-lo. Queria tê-lo para si, ao menos por um segundo. Naquele ultimo abraço, queria poder imaginar que tudo não passava de um pesadelo... Porque, mesmo tendo vivido anos de sofrimento, doía acreditar que ainda existiam humanos assim. Irracionais. Pessoas que matam por matar.
Naquela manhã calma de domingo, abri o jornal, como sempre faço - xícara de leite na mão e um ar despreocupado. A notícia, no canto inferior do caderno Metrópole, quase não chamou minha atenção. Mais uma invasão policial. Mais mortes. Nada muito fora da rotina. As palavras frias e diretas de um profissional consagravam os policiais como heróis no jornal vespertino, e a dor daquela mulher nunca chegou a ser conhecida.

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