Todos sabiam que não havia como salva-lo. O sangue
escorria e manchava tudo. A mão daquela mulher... Ela já estava totalmente
molhada em vermelho, mas, mesmo assim, era firme ao segurar o senhor em seus
braços. Não podia deixá-lo. Não. Não quando faltava tão pouco - e ela sabia que
faltava pouco.
Os tiros vieram do nada. Bala perdida. E o irônico é
que até mesmo ela sabia: a culpa recairia sobre seus iguais. Sua
"raça". Seu tipo inferior de ser. E, talvez pior fosse o fato de que
os culpados não eram, nem de perto, eles, pobres que simplesmente lutavam para
sobreviver. Mas sempre precisa-se de alguém para culpar. Nada melhor do que um
bando de desocupados, não é?! Pois é...
Seu amor morria em seus braços e não havia nada que
ela pudesse fazer. A mulher jurava ouvir risos... risos de um policial que,
diferentemente dos outros, não se contentava em apenas fazer seu trabalho. Ela
conseguia ver a alegria tingindo seus olhos ao maltratar. Abusar. Usar do poder
para... acabar com tudo. Sinceramente? O que tomava sua boca era asco, um nojo
incontrolável daquelas pessoas, que se diziam justiceiras e que não hesitavam
em atirar em um grupo que estava somente tentando sobreviver. Cruel... Mas
imutável. Agora, pior mesmo era ela saber que seus gritos de desespero nunca
seriam ouvidos. Ela morreria. E morreria como anônima.
-Eu estou morrendo.
A voz do homem soou, em algum momento, como um eco de
seus pensamentos. Ninguém conseguiu negar... Ninguém podia negar, até porque
era um fato óbvio. Apertando-o contra seu corpo, a mulher não percebeu como
aquilo podia ser doloroso. Ela só queria senti-lo. Queria tê-lo para si, ao
menos por um segundo. Naquele ultimo abraço, queria poder imaginar que tudo não
passava de um pesadelo... Porque, mesmo tendo vivido anos de sofrimento, doía
acreditar que ainda existiam humanos assim. Irracionais. Pessoas que matam por
matar.
Naquela manhã calma de domingo, abri o jornal, como
sempre faço - xícara de leite na mão e um ar despreocupado. A notícia, no canto
inferior do caderno Metrópole, quase não chamou minha atenção. Mais uma invasão
policial. Mais mortes. Nada muito fora da rotina. As palavras frias e diretas
de um profissional consagravam os policiais como heróis no jornal vespertino, e
a dor daquela mulher nunca chegou a ser conhecida.
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