terça-feira, 19 de junho de 2012

Morbidez cotidiana


Por Marcela Millan

A loira esquartejadora. A morte do dono da Yoki. Esse é o assunto que esta tomando, durante esses dias, as capas das revistas. O caso, talvez por ser bastante fora do rotineiro, tornou-se a pauta de todas as discussões. Não havia ninguém que não parasse, que fosse na mesa, ao jantar, para comentar  do ocorrido. Entretanto, apesar do primeiro choque, parece que as pessoas encontraram no cruel assassinato do homem um meio para passar o tempo. O sensacionalismo, ou talvez a simples vontade de ver o sofrimento, levaram à espetacularização da notícia. E a violência, que deveria chocar, tornou-se apenas um fator para trazer audiência.

Não é novidade: a violência esta cada vez mais explicita na mídia, sendo tratada de uma forma que a faz parecer comum, coisa do cotidiano.  Completamente explicita, ela chega ao consumidor de informação de uma forma até mesmo apelativa, que não respeita o sentimento das vitimas – as entrevistas em que um familiar aparece chorando são, com certeza, as mais esperadas no jornal da noite. Só posso dizer que isso me incomoda, e muito. Porque nós assistimos diariamente cenas que deveriam ser inaceitáveis em nosso cotidiano e simplesmente as tratamos como comuns. A tragédia, coisa mórbida, se incorporou em nossa sociedade, que agora parece ansiar por ela. E o estranho, então, configurou-se em algo completamente sem sentido –  estranho seria assistir ou ler um jornal que anunciasse “não há casos de violência no dia de hoje”.
Visando prender o telespectador, as cenas cruéis, sanguinolentas, repetem-se várias e várias vezes na televisão. Nos jornais e revistas, encontramos relatos detalhados de cada partezinha do assassinato. Tudo isso só para entreter, envolver o homem, que vê nesse tipo de noticia algo semelhante a novela que assiste. Cada dia há um novo capitulo, uma nova informação. Não se pode perder nenhum detalhe.
Fico só imaginando até quando vamos continuar compactuando com essa formula de sucesso – porque, sim, esse modo de fazer notícia é completamente aceito - que, na realidade, não tem lógica. A morbidez tomou o cotidiano. Acostumamo-nos com o que deveria incomodar. Mas, na realidade, deveríamos fazer exatamente o contrário. 
   

Nenhum comentário:

Postar um comentário