quinta-feira, 14 de junho de 2012

Psicanálise a céu aberto

Por Julia Teixeira


Temos que concordar que uma cena de nudez aberta, exposta a todos é bastante impressionante. Quando alguém fica pelado em determinado lugar, já vira assunto de aproximadamente uns dois meses de conversas, tanto nos momentos de descontração quanto no ambiente profissional. No meio artístico, não deveria ser diferente, ainda mais pelo fato de que as pessoas que vivem nele estão sempre expostas a flashes e câmeras de vídeo, se tornando um fervoroso tópico num estalar de dedos.
         Entretanto, essa situação foge do imaginável na produção teatral Equus, que estreiou em São Paulo no dia 13 de abril no Teatro Folha e tem sua temporada até o dia 01 de julho. Nesta peça, o que menos deixa o público atônito é a cena de nudez, perfeitamente bem colocada no contexto da encenação.
         A história se desenvolve em torno do misterioso crime que causou a  cegueira de cinco cavalos cometido pelo jovem Alan Strang, o filho aparentemente saudável de um pai comunista e uma mãe religiosa. O criminoso é tratado pelo psiquiatra Martin Dysart, que precisar lidar também com seus próprios medos para conseguir descobrir o motivo que levou o garoto a cometer tal ato.
         A maioria do elenco não faz parte da grande mídia, fato que não retira o mérito de sua ótima atuação no espetáculo. Os protagonistas Alan e Dr Martin são vividos respectivamente por Leonardo Miggiorin (ator global de novelas como Mulheres Apaixonadas) e Elias Andreato (cineasta, diretor e ator de produções como a minissérie da Rede Globo A muralha), ambos atuando de maneira fora do comum.
                                   (fonte: André Muzell/ Ag. News)
         Um fato que achei super interessante na apresentação foi o de que a maioria dos atores fica em cena durante todo o tempo, ajudando também a modificar o cenário quando necessário. Este, inclusive, bastante simples, formado por uma espécie de dois pequenos corredores de um tipo de celas de prisão semiabertas e em tamanho reduzido, fechadas com grade e com cadeiras dispostas em seu interior, onde quem não está atuando se situa.
         O espetáculo dura cerca de 90 minutos, mas, por conta do forte enredo e da grande quantidade de falas e detalhes a serem mostrados, parece que não se passou nem meia hora. Dentro da sala, o público é submetido a vida do “lunático” (como é dito por um dos personagens da peça) jovem, tendo até, em certas ocasiões, a ilusão de possuir conhecimento e poder para analisá-lo e diagnosticá-lo junto ao doutor.
Ao mesmo tempo, cada ser humano presente na platéia acaba, em um momento ou outro, refletindo sobre sua própria vida e relacionando os temas abordados na apresentação, como a influência religiosa, os instintos do homem e a parte inconsciente da mente, com seu próprio cotidiano. Muitos, inclusive, devem acabar se imaginando no lugar do protagonista no “divã público” do Dr Martin. Toda esta experiência, mesmo deixando o público desorientado de certa forma ao deixar o teatro, também proporciona certo alívio, já que os espectadores passaram pelas tensões dos personagens e puderam pensar sobre sua própria existência, observando que sua vida pode não ser tão ruim como as vezes imaginam. O destino de todos, então, ao passarem pela porta, é retornar às suas tarefas diárias, galopando por esse longo e, muitas vezes, não muito bem direcionado caminho que denominamos vida.  
                                 (fonte: Nanda Rovere)

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