Quem pensa que censura é coisa restrita à época
da ditadura se engana profundamente. Hoje, talvez mais camuflada, ela continua
presente, às vezes chamando a atenção, outras, passando quase que completamente
despercebida. No ano de 2008, o filme franco-iraniano, Persépolis, não foi
exibido, por exemplo, na Líbia. Em 2011, quem chamou a atenção foi "Um
filme sérvio - Terror sem limites", que foi proibido em muitos países - um
deles era o Brasil. Mas talvez o tipo
de censura mais presente na atualidade seja aquela dirigida aos animes -
animação japonesa - que passam na televisão, seja aberta ou não.
Não é novidade: desde que a televisão começou a
investir nesse tipo de animação, instituições – como a 4kids – tentaram adaptar
os animes, por vezes mudando suas histórias para que estas se enquadrassem ao
perfil infantil. Cenas que “afetam a moral e ética”, ou com violência e
conteúdo sexual explicito são cortadas, algumas imagens modificadas, e o
contexto original, por vezes, é prejudicado por toda essa intervenção. A
indignação dos fãs é incontestável, tanto que estes preferem recorrer à
internet para ver o material original, sem cortes – mesmo que, em muitos casos,
a qualidade da imagem não seja tão boa quanto na televisão.
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| Censura ocorrida no anime One Piece, com o personagem Sanji |
O problema, alegam os fãs, é que nem todos os
animes têm conteúdo infantil. A maioria das tramas são complexas, envolvendo
assuntos que nem mesmo com censura ficariam realmente adaptados para as
crianças. Então, melhor seria não interferir no conteúdo e exibir o material em
um outro canal, não infantil, em horários mais avançados, em que raramente
crianças assistem televisão.
Ironicamente, como já discutido na matéria
“Quando o exagero vira a regra” (leia aqui), a televisão parece não se
incomodar quando as cenas de sexo ou brigas acontecem nas novelas brasileiras.
Nesse caso, a censura é quase nula. Temos, então, um paradigma, que mostra a
enorme hipocrisia que estamos cercados. Os animes, simplesmente por serem
“desenhos”, sofrem censura; as novelas, que são assistidas, na maior parte das
vezes, por famílias completas, não.
Em 2010, no Japão, foi aprovada uma lei que é
popularmente conhecida como “lei anti-otaku”. Ela impõe restrições em relação a publicação de animes,
mangás e games que tenham em seu conteúdo uma abordagem de temas “nocivos” para
crianças – sexo e violência. Com essa lei PL 156, as obras “ofensivas” não
poderiam mais ser vendidas para menores de 18 anos. Uma restrição assim
abalaria o mercado, podendo até mesmo vetar a publicação de certas obras, pelo
simples medo da censura. Entretanto, essa não seria uma medida realmente
efetiva. Proibir nunca é a melhor forma de se lidar com uma situação.
Como podemos ver, a censura esta impregnada nas
obras atuais. Apesar disso, a luta contra ela parece ser menos fervorosa do que
antigamente. Envolta com ideais que parecem dar crédito à ela, levando em conta
alguns valores morais, a censura parece ter quase espaço livre para se fazer
presente. No fundo, é apenas o espírito capitalista fazendo-se valer, uma vez
que adapta-se algo visando ibope, assim como libera-se cenas “picantes” para
atrair o espectador. É uma contradição que acaba quando se percebe que as instituições
fazem o que fazem visando pura e simplesmente o lucro.

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