quarta-feira, 27 de junho de 2012

Proibições consentidas

Por Marcela Millan



          Quem pensa que censura é coisa restrita à época da ditadura se engana profundamente. Hoje, talvez mais camuflada, ela continua presente, às vezes chamando a atenção, outras, passando quase que completamente despercebida. No ano de 2008, o filme franco-iraniano, Persépolis, não foi exibido, por exemplo, na Líbia. Em 2011, quem chamou a atenção foi "Um filme sérvio - Terror sem limites", que foi proibido em muitos países - um deles era o Brasil. Mas talvez o tipo  de censura mais presente na atualidade seja aquela dirigida aos animes - animação japonesa - que passam na televisão, seja aberta ou não.
          Não é novidade: desde que a televisão começou a investir nesse tipo de animação, instituições – como a 4kids – tentaram adaptar os animes, por vezes mudando suas histórias para que estas se enquadrassem ao perfil infantil. Cenas que “afetam a moral e ética”, ou com violência e conteúdo sexual explicito são cortadas, algumas imagens modificadas, e o contexto original, por vezes, é prejudicado por toda essa intervenção. A indignação dos fãs é incontestável, tanto que estes preferem recorrer à internet para ver o material original, sem cortes – mesmo que, em muitos casos, a qualidade da imagem não seja tão boa quanto na televisão.

Censura ocorrida no anime One Piece, com o personagem Sanji

          O problema, alegam os fãs, é que nem todos os animes têm conteúdo infantil. A maioria das tramas são complexas, envolvendo assuntos que nem mesmo com censura ficariam realmente adaptados para as crianças. Então, melhor seria não interferir no conteúdo e exibir o material em um outro canal, não infantil, em horários mais avançados, em que raramente crianças assistem televisão.
          Ironicamente, como já discutido na matéria “Quando o exagero vira a regra” (leia aqui), a televisão parece não se incomodar quando as cenas de sexo ou brigas acontecem nas novelas brasileiras. Nesse caso, a censura é quase nula. Temos, então, um paradigma, que mostra a enorme hipocrisia que estamos cercados. Os animes, simplesmente por serem “desenhos”, sofrem censura; as novelas, que são assistidas, na maior parte das vezes, por famílias completas, não.
          Em 2010, no Japão, foi aprovada uma lei que é popularmente conhecida como “lei anti-otaku”.  Ela impõe restrições em relação a publicação de animes, mangás e games que tenham em seu conteúdo uma abordagem de temas “nocivos” para crianças – sexo e violência. Com essa lei PL 156, as obras “ofensivas” não poderiam mais ser vendidas para menores de 18 anos. Uma restrição assim abalaria o mercado, podendo até mesmo vetar a publicação de certas obras, pelo simples medo da censura. Entretanto, essa não seria uma medida realmente efetiva. Proibir nunca é a melhor forma de se lidar com uma situação.
          Como podemos ver, a censura esta impregnada nas obras atuais. Apesar disso, a luta contra ela parece ser menos fervorosa do que antigamente. Envolta com ideais que parecem dar crédito à ela, levando em conta alguns valores morais, a censura parece ter quase espaço livre para se fazer presente. No fundo, é apenas o espírito capitalista fazendo-se valer, uma vez que adapta-se algo visando ibope, assim como libera-se cenas “picantes” para atrair o espectador. É uma contradição que acaba quando se percebe que as instituições fazem o que fazem visando pura e simplesmente o lucro.

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