Toda segunda,
faça chuva ou sol no ponto de ônibus de sempre, ela me intriga. Uma mulher
alta, cabelos bem compridos, branca quase palida, com expressão de início de
semana, algo inevitável para todos nós. Sua costumeira cara de
desconfiança e pesar continua em minha cabeça em boa parte do meu rotineiro
trajeto até a universidade, mesmo que a mulher não faça este mesmo percurso.
Mulher, guardem bem esta palavra, ela será útil mais adiante.
Suas roupas são sempre fechadas,
dando a impressão de que a “figura” esconde algo. Até burcas não seriam
suficiente para ela. Sempre de salto alto, seus pés diminuem o ritmo ao chegar
mais perto de onde espera seu transporte, parada como uma estátua e nitidamente
desconfortável. As pessoas que também se encontram naquele local da avenida
mais movimentada da cidade (as mesmas todo começo de semana) a observam com
essa mesma curiosidade, disfarçando obviamente quando os olhares se cruzam.
Desde o início das aulas a observo
quase que atentamente, tentando captar elementos que esta pessoa (honestamente
não sei como denominá-la) deixa transparecer de sua vida. Depois de muito
tempo, notei um detalhe essencial para que esta cena se encaixe como uma luva
em nosso cotidiano e em nosso mundo.
Ela? Não, ele. Já era de se desconfiar, por conta do olhar assustado e
inseguro mesmo tendo porte para agir com segurança. O detalhe: sua garganta,
com o órgão que homenageia o primeiro ser humano masculino da Terra. É, nem
tudo é o que parece, assim como a beleza de alguém pode ser cercada por vários
segredos.
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