Por Júlia Paolieri
“Um pequeno e fascinante livro. Tão bem talhado quanto aquele pretinho básico que Bonequinha de Luxo tornou famoso”.
- New York Times
Em “Quinta Avenida, 5 da manhã”, o escritor formado
em cinema Sam Wasson faz uma retomada de como aconteceu a produção,
contratação do roteirista, diretos, atores, do filme Bonequinha de Luxo,
clássico estrelado por Audrey Hepburn. Clássico agora, uma vez que como
Wasson deixa claro, o filme baseado na obra de Truman Capote quase não
saiu, tantas foram as perturbações e imprevistos.
Quando Capote escreveu sobre Holly Golightly, ela era
a imagem de sua mãe, que não lhe dava atenção e passava dias fora
dormindo com estranhos, e da socialite Babe Paley, mulher que
Truman tanto gostava e admirava. No entanto, essa Mrs. Golightly do
livro não poderia ser transportada para as telas de Hollywood. Na
essência descrita na obra de Truman Capote, ela afetaria as condições e
restrições morais impostas quando um roteiro era lido durante a
pré-produção do filme.
O roteiro escrito por George Axelrod, última opção
para roteirista que, segundo a critica não era capaz de escrever com
“solidificada intelectualidade” – visto que tinha participado de títulos
como O pecado mora ao lado – conseguiu, com estratégias, passar pela Production Administration Code (que via danos morais).
Miss Hepburn, a moça bem nascida e boazinha que faz
de tudo para agradar a seu marido e tem como ambição maior construir uma
família, ideal de mulher dos anos 50, também não foi primeira opção
para interpretar Holly. Nomes como Marilyn Monroe, que era já era
conhecida por seu sex appeal, foram citados para interpretar o papel
principal, mas, depois de muita insistência, Audrey, mesmo não
acreditando que conseguiria, deu vida à Holly Golightly. E enquanto o
fazia, pedia insistentemente que a publicidade em torno do filme
deixa-se claro que ela, Audrey, não era como Holly, e principalmente,
que essa personagem não era uma vagabunda, mas uma kook, excêntrica.
Além de tratar dos acontecimentos da produção, e
trazer aos leitores uma abrangente e detalhada vista sobre os bastidores
do filme, apresentando dados, como o valor que foi gasto para a
filmagem da festa de Holly – US$20 milhões – uma das mais caras da
história do cinema, filmada durante 8 dias; os acontecimentos do Oscar
para o qual Bonequinha recebeu 5 indicações e levou duas; Sam Wasson preocupa-se em mostrar como produções anteriores, como Sabrina, A princesa e o plebeu,
por exemplo, tiveram influência na produção do filme que teve a
primeira filmagem acontecendo no dia 2 de outubro de 1960 em Nova York,
na Quinta Avenida, ao amanhecer.
Wasson enfoca uma passagem na história, a qual esse
filme favoreceu e muito: a passagem da mulher antiga para a mulher
moderna. Holly Golightly é o tipo de mulher que não era aceita nos anos
50, mas era o ideal da década de 60 em frente, expressava uma mulher
livre, independente, que vivia por conta, e não seguindo opiniões e
conselhos maternos, que é forte. O modelito preto de Givenchy, cor não
usada por mulheres a não ser em momentos de luto, é uma peça fundamental
que evidencia a mudança de parâmetros morais e comportamentais da
mulher moderna.
Falar sobre o livro e sobre todos os fatos que Sam Wasson trata com
muita riqueza, é extremamente fácil, e embora tenha recebido apenas 2
Oscar, e Truman Capote tenha assumido que não estava de acordo com o
roteiro e com a Holly interpretada por Hepburn, Bonequinha de Luxo,
é para muitos de hoje e do passado uma obra-prima que vale sempre ser
vista e revista. Essa obra de Wasson deve também ser apreciada por todos
aqueles que adoram Holly, Audrey, Capote, ou simplesmente cinema e as
suas peculiaridades.
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