quinta-feira, 5 de julho de 2012

Bonequinha de Luxo: uma obra sobre a obra




“Um pequeno e fascinante livro. Tão bem talhado quanto aquele pretinho básico que  Bonequinha de Luxo tornou famoso”.
- New York Times
















                Em “Quinta Avenida, 5 da manhã”, o escritor formado em cinema Sam Wasson faz uma retomada de como aconteceu a produção, contratação do roteirista, diretos, atores, do filme Bonequinha de Luxo, clássico estrelado por Audrey Hepburn. Clássico agora, uma vez que como Wasson deixa claro, o filme baseado na obra de Truman Capote quase não saiu, tantas foram as perturbações e imprevistos.
                Quando Capote escreveu sobre Holly Golightly, ela era a imagem de sua mãe, que não lhe dava atenção e passava dias fora dormindo com estranhos, e da socialite Babe Paley, mulher que Truman tanto gostava e admirava. No entanto, essa Mrs. Golightly do livro não poderia ser transportada para as telas de Hollywood. Na essência descrita na obra de Truman Capote, ela afetaria as condições e restrições morais impostas quando um roteiro era lido durante a pré-produção do filme.
                O roteiro escrito por George Axelrod, última opção para roteirista que, segundo a critica não era capaz de escrever com “solidificada intelectualidade” – visto que tinha participado de títulos como O pecado mora ao lado – conseguiu, com estratégias, passar pela Production Administration Code (que via danos morais).
                Miss Hepburn, a moça bem nascida e boazinha que faz de tudo para agradar a seu marido e tem como ambição maior construir uma família, ideal de mulher dos anos 50, também não foi primeira opção para interpretar Holly. Nomes como Marilyn Monroe, que era já era conhecida por seu sex appeal, foram citados para interpretar o papel principal, mas, depois de muita insistência, Audrey, mesmo não acreditando que conseguiria, deu vida à Holly Golightly. E enquanto o fazia, pedia insistentemente que a publicidade em torno do filme deixa-se claro que ela, Audrey, não era como Holly, e principalmente, que essa personagem não era uma vagabunda, mas uma kook, excêntrica.
                Além de tratar dos acontecimentos da produção, e trazer aos leitores uma abrangente e detalhada vista sobre os bastidores do filme, apresentando dados, como o valor que foi gasto para a filmagem da festa de Holly – US$20 milhões – uma das mais caras da história do cinema, filmada durante 8 dias; os acontecimentos do Oscar para o qual Bonequinha recebeu 5 indicações e levou duas; Sam Wasson preocupa-se em mostrar como produções anteriores, como Sabrina, A princesa e o plebeu, por exemplo, tiveram influência na produção do filme que teve a primeira filmagem acontecendo no dia 2 de outubro de 1960 em Nova York, na Quinta Avenida, ao amanhecer.
                Wasson enfoca uma passagem na história, a qual esse filme favoreceu e muito: a passagem da mulher antiga para a mulher moderna. Holly Golightly é o tipo de mulher que não era aceita nos anos 50, mas era o ideal da década de 60 em frente, expressava uma mulher livre, independente, que vivia por conta, e não seguindo opiniões e conselhos maternos, que é forte. O modelito preto de Givenchy, cor não usada por mulheres a não ser em momentos de luto, é uma peça fundamental que evidencia a mudança de parâmetros morais e comportamentais da mulher moderna.
                Falar sobre o livro e sobre todos os fatos que Sam Wasson trata com muita riqueza, é extremamente fácil, e embora tenha recebido apenas 2 Oscar, e Truman Capote tenha assumido que não estava de acordo com o roteiro e com a Holly interpretada por Hepburn, Bonequinha de Luxo, é para muitos de hoje e do passado uma obra-prima que vale sempre ser vista e revista. Essa obra de Wasson deve também ser apreciada por todos aqueles que adoram Holly, Audrey, Capote, ou simplesmente cinema e as suas peculiaridades.

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