por Marcela Millan
Escrevo porque fiquei
revoltada - é, não vamos deixar o nível cair - com algo que aconteceu há alguns
dias. Em um mundo que se debate tanto sobre preconceito, surpreende-me o quão
hipócritas podemos ser. Ou, quem sabe, falsos - mas não com os outros, e sim com nós mesmos.
Sempre tive uma amiga
bissexual. Meu relacionamento com ela não era nada diferente de qualquer outro.
Ela sabia de meu gosto, e eu do dela, e tudo continuava normal. Claro que ela
não entrava em detalhes comigo... até porque, fosse mulher com mulher, homem
com homem ou mulher com homem - não muda nada! - seria constrangedor. Até aí,
tudo bem. Só amaldiçoo o dia em que eu resolvi abrir a boca.
O assunto surgiu do nada, em
uma roda de conversas. Mantive-me calada por um bom tempo, evitando a discussão
que eu já previa. Típica libriana, costumo fugir desse tipo de coisa... mas
acabei não conseguindo, dessa vez.
"É
anti-natural" - disse um amigo, que o nome não convém. "Homem e
mulher foram feitos para ficarem juntos, e quando isso não acontece, é
estranho. Não deve ser assim, não é certo! Vai contra a natureza humana."
Meu primeiro instinto foi
deixar o lugar no mesmo segundo, tamanha ignorância e preconceito que vi
naquela fala. Entretanto, como poucas vezes faço, acabei levando a
discussão ao ápice. Quando discutimos gostos, ninguém me critica por ser uma
menina que prefere o azul ao rosa, ou a pizza ao hamburguer. Ninguém discute o
porquê disso, já que é simplesmente uma questão de gosto. Entretanto, quando
enveredamos pelo caminho da homossexualidade, o quadro se inverte. Parece que
existe um tabu. Como se a sexualidade de uma pessoa fosse um tipo de doença
contaminosa...! Francamente, esse medo de falar é ridículo. E, claro, esse medo
leva a outros, como o de assumir sua preferência. Você não é melhor ou pior
simplesmente porque gosta de algo diferente - que, aliás, nem é tão diferente
assim.
Não pretendo ser moralista
aqui, e talvez nem saia do senso comum – a verdade é que esse texto é quase um
desabafo, um grito que, por muito tempo, foi abafado. Diante de tantos casos de
agressões contra homossexuais que foram divulgados nos ultimos meses, não podia
me manter calada. E, de tudo isso, acho que só concluo uma coisa: não importa
como a sociedade se comporte frente ao homossexualismo, acho que quem assume o
que é, sem se preocupar com os julgamentos, merece o respeito de todos. Porque
passar por cima desse grande preconceito é, realmente, um enorme ato de
coragem.
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