Magro, alto, olhos fundos, um pouco
bruxo, dono de uma figura marcante.
Um dos grandes nomes da literatura contemporânea, Caio Fernando Abreu, foi/é muito além do “cara” que te dá conselhos, te dita frases pelo facebook.
Um dos grandes nomes da literatura contemporânea, Caio Fernando Abreu, foi/é muito além do “cara” que te dá conselhos, te dita frases pelo facebook.
De alma paulista, por algum acidente,
Caio Fernando Abreu nasceu no Rio Grande do Sul em 1948, na cidade de Santiago
do Boqueirão, aonde mais tarde veio a falecer vítima do vírus da AIDS. Mudou-se
para capital paulistana em 1968 para trabalhar na primeira equipe da revista
Veja – de onde saiu brigado como de tantas outras publicações -deixando para
traz o curso de letras e artes cênicas da UFRGS.
Apesar de ter passado grande parte de
sua vida em uma relação de amor e ódio com São Paulo, Caio era um viajante,
apaixonou-se por Paris, viveu o sonho americano, participou dos movimentos
hippies londrinos, pegou carona para o Ocidente, passou fome, lavou pratos,
invadiu casas abandonadas, foi preso, morou de favor, não parou e apesar de ter
morrido jovem, aos 48 anos, o escritor/dramaturgo/jornalista teve uma vida
intensa, cheia de altos, baixos, recheada de arte, sonhos, amores, literatura.
Foi fã de Clarice, Virginia Wolf,
Cortázar, Sartre, Joplin, Hendrix, Billie, Villa Lobos, Calcanhoto. Fez Yoga,
meditação, terapia. Leu I Ching, Jung, tarô. Foi astrólogo de formação, um
pouco bruxo, intuitivo, um místico. Amigo de Hilst, Ana C, Elis, Cazuza, dos
bares, da boemia. Um pouco louco, dramático, jovem dos anos 70. Homo, Bi, “Multissexual”.
Deixou que todas essas minúcias transbordassem em sua literatura. Escreveu
sobre o amor e a procura, o desespero do encontro, do desencontro, da partida,
das permanências.
Foi vida & obra.
Foi vida & obra.
Apesar da duplicidade autor/narrador
existentes em todos os estudos teóricos da literatura, seria difícil
desvincular a voz narrativa de Caio escritor de sua voz autobiográfica. Seus
personagens, são um nítido reflexo de toda uma geração, que como Caio cita em
um de seus contos “pegou a coisa viva”, uma geração que viveu o prazer e o
terror dos anos 60/70/80, viu o nascer da modernidade, sentiu na pele o frio da
ditadura, o fogo do rock in roll, a malemolência morna do Tropicalismo, viu o naufragar dos próprios
sonhos, assistiu ao nascimento de uma
democracia mal acabada, descobriu as dores e angustias de uma liberdade
batalhada, mas incompleta.
“Estamos vivendo uma noite difícil, mas
as pessoas estão procurando o amor, ou enlouquecendo, ou discutindo à espera de
um futuro, buscando uma nova ordem para as coisas”
Seus personagens são sombrios, noturnos,
profundos, ardentes, amantes, sonhadores, raros e consequentemente sozinhos.
Sua linguagem é rica, intimista, sofisticada, situada entre o marginal e o
burguês, cheia de silêncios e elipses. Talvez a literatura do indizível se não
fosse estranho nos ocuparmos de tal denominação tamanha é a imersão de seu
leitor no mundo dos sentidos, dos significados, das palavras.
Mergulhar
em seus contos é transportasse para uma atmosfera cheia de antíteses onde o
divino e o profano são os principais ingredientes na construção da imagem do
homem moderno, tão perdido e carente de si próprio.
De “Limite Branco”, seu primeiro romance
publicado aos 19 anos, até “Os Dragões não Conhecem o Paraíso” de 1988, assistimos o desenrolar de uma trama
compartilhada por todas as gerações, iniciada no desflorar dos primeiros
índices da singularidade conquistada na puberdade, até a miséria de perceber-se
uma particular solta em um mundo que não é de ninguém e tampouco de todo mundo.
Os drama vivenciados pelos protagonistas
de “Apenas uma Maçã”,“ O inventário do ir – remediável” (1970) “Dama da Noite”,
“ Sapatinhos Vermelhos”,(1980) “ Os sobreviventes”, “Pela Noite” (1982) , são
exemplos da inquietude que percorreu as três mais loucas décadas do século
passado, e perduram até hoje, onde a temática da procura é constantemente contraposta e
intimidada pela falta do encontro, do “encaixe”, em tempos em que “ser” ainda é
intolerável.
A morte de Caio em meados dos anos 90,
jamais significaria a morte de sua obra – cada vez mais reeditada. Não é de se
estranhar a sua popularidade – sua obra é urbana, viva, atual. Porém não
podemos esquecer e diminuir sua
complexidade, desloca- lá de sua natureza, banalizá-la e reduzi-la ao trivial.
A internet, como uma nova fonte de
informação é um dos meios mais eficientes para a divulgação da informação e cultura.
A literatura como patrimônio cultural não deve escapar a esse domínio e deve
sim ser transportada para esse veiculo, mas com os devidos cuidados, para não
transfigurar a sua essência fantasiosa, mas jamais alienadora.
Caio,
como tantos outros nomes da nossa literatura, deve e merece ser lido e
divulgado, mas sua obra não cabe aos botões de “like” e “compartilhar” na tela
do computador.


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