quarta-feira, 25 de abril de 2012

Para verdadeiramente "Likes" Caio.



Magro, alto, olhos fundos, um pouco bruxo, dono de uma figura marcante.
Um dos grandes nomes da literatura contemporânea, Caio Fernando Abreu, foi/é muito além do “cara” que te dá conselhos, te dita frases pelo facebook.
De alma paulista, por algum acidente, Caio Fernando Abreu nasceu no Rio Grande do Sul em 1948, na cidade de Santiago do Boqueirão, aonde mais tarde veio a falecer vítima do vírus da AIDS. Mudou-se para capital paulistana em 1968 para trabalhar na primeira equipe da revista Veja – de onde saiu brigado como de tantas outras publicações -deixando para traz o curso de letras e artes cênicas da UFRGS.
     Apesar de ter passado grande parte de sua vida em uma relação de amor e ódio com São Paulo, Caio era um viajante, apaixonou-se por Paris, viveu o sonho americano, participou dos movimentos hippies londrinos, pegou carona para o Ocidente, passou fome, lavou pratos, invadiu casas abandonadas, foi preso, morou de favor, não parou e apesar de ter morrido jovem, aos 48 anos, o escritor/dramaturgo/jornalista teve uma vida intensa, cheia de altos, baixos, recheada de arte, sonhos, amores, literatura.
     Foi fã de Clarice, Virginia Wolf, Cortázar, Sartre, Joplin, Hendrix, Billie, Villa Lobos, Calcanhoto. Fez Yoga, meditação, terapia. Leu I Ching, Jung, tarô. Foi astrólogo de formação, um pouco bruxo, intuitivo, um místico. Amigo de Hilst, Ana C, Elis, Cazuza, dos bares, da boemia. Um pouco louco, dramático, jovem dos anos 70. Homo, Bi, “Multissexual”. Deixou que todas essas minúcias transbordassem em sua literatura. Escreveu sobre o amor e a procura, o desespero do encontro, do desencontro, da partida, das permanências.
Foi vida & obra.
Apesar da duplicidade autor/narrador existentes em todos os estudos teóricos da literatura, seria difícil desvincular a voz narrativa de Caio escritor de sua voz autobiográfica. Seus personagens, são um nítido reflexo de toda uma geração, que como Caio cita em um de seus contos “pegou a coisa viva”, uma geração que viveu o prazer e o terror dos anos 60/70/80, viu o nascer da modernidade, sentiu na pele o frio da ditadura, o fogo do rock in roll, a malemolência morna  do Tropicalismo, viu o naufragar dos próprios sonhos, assistiu ao  nascimento de uma democracia mal acabada, descobriu as dores e angustias de uma liberdade batalhada, mas incompleta.

“Estamos vivendo uma noite difícil, mas as pessoas estão procurando o amor, ou enlouquecendo, ou discutindo à espera de um futuro, buscando uma nova ordem para as coisas”

Seus personagens são sombrios, noturnos, profundos, ardentes, amantes, sonhadores, raros e consequentemente sozinhos. Sua linguagem é rica, intimista, sofisticada, situada entre o marginal e o burguês, cheia de silêncios e elipses. Talvez a literatura do indizível se não fosse estranho nos ocuparmos de tal denominação tamanha é a imersão de seu leitor no mundo dos sentidos, dos significados, das palavras.
Mergulhar em seus contos é transportasse para uma atmosfera cheia de antíteses onde o divino e o profano são os principais ingredientes na construção da imagem do homem moderno, tão perdido e carente de si próprio.
De “Limite Branco”, seu primeiro romance publicado aos 19 anos, até “Os Dragões não Conhecem o Paraíso”  de 1988, assistimos o desenrolar de uma trama compartilhada por todas as gerações, iniciada no desflorar dos primeiros índices da singularidade conquistada na puberdade, até a miséria de perceber-se uma particular solta em um mundo que não é de ninguém e tampouco de todo mundo.
Os drama vivenciados pelos protagonistas de “Apenas uma Maçã”,“ O inventário do ir – remediável” (1970) “Dama da Noite”, “ Sapatinhos Vermelhos”,(1980) “ Os sobreviventes”, “Pela Noite” (1982) , são exemplos da inquietude que percorreu as três mais loucas décadas do século passado, e perduram até hoje, onde a temática da  procura é constantemente contraposta e intimidada pela falta do encontro, do “encaixe”, em tempos em que “ser” ainda é intolerável.
A morte de Caio em meados dos anos 90, jamais significaria a morte de sua obra – cada vez mais reeditada. Não é de se estranhar a sua popularidade – sua obra é urbana, viva, atual. Porém não podemos esquecer e diminuir  sua complexidade, desloca- lá de sua natureza, banalizá-la e reduzi-la ao trivial.
A internet, como uma nova fonte de informação é um dos meios mais eficientes para a divulgação da informação e cultura. A literatura como patrimônio cultural não deve escapar a esse domínio e deve sim ser transportada para esse veiculo, mas com os devidos cuidados, para não transfigurar a sua essência fantasiosa, mas jamais alienadora.
       Caio, como tantos outros nomes da nossa literatura, deve e merece ser lido e divulgado, mas sua obra não cabe aos botões de “like” e “compartilhar” na tela do  computador.

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