Quando era pequena, fingia que dormia pelo simples gostinho de sentir os braços dele ao redor de mim, me carregando para minha cama, arrumando-me lá com todo aquele carinho e zelo típico de pai. O medo de ser descoberta em meu próprio jogo fazia-me fechar os olhos com mais força do que o necessário, e hoje percebo que talvez isso me denunciasse. Mas, naquela época, não havia problema. Lembro-me perfeitamente de meu coração batendo até mesmo mais rápido, e de minhas tentativas de manter minha respiração calma e regular quando papai se abaixava para me dar um beijo – rápido, com medo de me acordar – de boa noite. Era só quando a porta se fechava que eu me permitia sorrir. Criança, pensava que essa alegria estranha que me tomava naquele momento vinha de minha bem sucedida atuação. Agora, arrisco dizer que havia algo a mais.
Isso porque, mesmo anos depois, mesmo quando a “brincadeira” perdeu a graça e ficou esquecida em meu passado, ainda me pego com o mesmo sorriso no rosto, aquele que me provocava – e ainda provoca – um sentimento tão bom que é impossível descrever.
Como agora, nessa sexta-feira. Fui a uma festa e – claro - acabei voltando bastante tarde. Como de costume, bati à porta do quarto de meus pais para avisar que já havia chegado, que estava tudo bem comigo, obrigada. O resultado foi um pai sonolento, bocejando pela casa, durante todo o sábado, como se ele não tivesse pregado o olho até o instante em que ouviu minha chegada. Vê-lo assim, por algum motivo curioso, me trouxe de volta a mesma alegria de antigamente.
Não sei dizer quando isso acontece. Às vezes, é só por causa de um olhar; outras, por uma piada que nem tanta graça tinha. A preocupação, também, com meu frio, fome, humor. Cada coisinha, por vezes tão pequena, aparentemente tão insignificante... Coisa de pai, sabe?
Talvez seja por isso que eu o ame tanto. Provavelmente é por isso e por muitas outras coisas. E não importa o quanto eu tente entender, percebo que, na realidade, o melhor é não entender. Afinal, amor não faz sentido mesmo. Ele só nos domina e nos preenche de tal forma que vicia, e nós não temos como repeli-lo. É uma ligação tão forte e pura... Ainda mais quando se pensa em pais e filhos.
Exatamente por isso que eu parei, esses dias todos, para me perguntar o que eu daria para meu pai em “seu” dia. Tenho certeza que essa é uma tarefa dificil para todos. O que eu deveria fazer? Nenhum presente representaria que fosse uma parcela mínima do que eu sentia por ele. E o que eu deveria falar-lhe parecia-me um mistério. “Parabéns”? “Feliz dia dos pais”? “Toma, é pra você. Te amo”? Não, não, não. Nada disso parecia certo. Mas finalmente eu decidi. Depois de perder umas noites pensando, decidi que darei a ele meu sorriso, aquele sorriso.
… Até porque um sorriso, mesmo no silêncio, pode ser um amontoado de palavras.
Lindo minha filha querida!!! Mas o que seria de mim sem vocês?
ResponderExcluir"E agora ... me pego com o mesmo sorriso no rosto, aquele que me provocava – e ainda provoca – um sentimento tão bom que é impossível descrever. … Até porque um sorriso, mesmo no silêncio, pode ser um amontoado de palavras."
E, emocionado e com muito orgulho de pai, posso dizer que as suas palavras são as que melhor expressam meus sentimentos agora, minha pequena grande escritora.
Papai Beto (issuuuu papai, issuuuu!)
Parabéns Marcela. Você me emocionou muito.
ResponderExcluirMuito bom Ma , adorei !!!! Seu pai é um PAIZAO e merece tudo de mais feliz sempre , e com certeza no texto a gente ve e muito o amor entre voces !!!
ResponderExcluirbeijao
Ai que lindo... Lagrímas nos olhos Mah.
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