quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Matern(idade)


Por Marcela Millan
          Aos 37 anos, Selena Innecco, médica, abortou seu primeiro filho. Dois anos mais tarde, voltou a engravidar, mas, dessa vez, foi a saúde gravemente comprometida do bebê que o levou a falecer, com pouco mais de um ano. Abalada com as duas perdas, Selena não podia esperar que, aos 43 anos, seu sonho viesse a se concretizar. Com 39 semanas de gestação, José nasceu, saudável, fruto do acaso.
          A gravidez tardia está, a cada dia, tornando-se mais comum. Dados da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) mostram que a porcentagem de mulheres acima de 40 anos que buscam tratamentos para engravidar dobrou de 1990 a 2002, passando de 7% para 14%. Nos Estados Unidos, as mães com mais de 40 anos já chegam a 25% do total, algo que não assusta Selena. “Hoje em dia, muitas mulheres fazem a escolha de engravidar mais tarde, quando já se estabeleceram profissionalmente e já têm uma vida mais estável.
          É claro que há alguns motivos particulares que às vezes são os responsáveis por esse aumento de crianças nascidas de mães "quarentonas", mas acho que o principal mesmo é que as mulheres atualmente não vivem somente para a família e a casa. A vida profissional ocupa um espaço importante na vida da mulher e a vinda da criança acaba sendo adiada para um momento mais oportuno”.
          É inegável que a inserção da mulher ao mercado de trabalho contribuiu para o adiamento da gravidez. Entretanto, Elza Montoro, psicóloga, aponta outro motivo que, para ela, é tido como o mais influente. “Podemos dizer que a auto estima da mulher moderna é muito maior do que a de antigamente. A mulher tornou-se dona de sua vida e, com isso, deu-se o direito de opinar, de decidir. Antigamente, uma mulher era submissa a seu marido. Hoje, isso não é mais verdade.” A psicóloga apontou, também, que o avanço da medicina trouxe mais segurança para as mulheres, que perceberam que podiam se apoiar nele e arriscar ter um filho. “Muitas “mães tardias” que eu tive contato me contaram que não pensavam em engravidar antes. Foi só mais tarde que perceberam que se arrependiam dessa escolha, e que o tempo para mudar isso estava acabando. A maioria delas contava-me que, se não houvesse o suporte da medicina, aceitariam que já não era mais o momento para se ter um filho”.
          Blandina Franco, 47, escritora, é um exemplo de mulher que não teria engravidado sem a medicina. “O José nasceu depois de algumas tentativas de FIV (Fertilização in vitro)”, contou. Seu terceiro filho nasceu quando ela já tinha 44 anos. “Ao contrário do que falam, minha gravidez foi super tranquila. A única complicação foi que, no terceiro trimestre, eu tive diabetes gestacional, que é uma coisa chata, mas não um problema grave quando se é acompanhado pelo médico.”
          Os riscos que a mãe e o bebê correm em casos de gravidez tardia são incontestáveis. As chances de ocorrer um aborto chegam a 25%, e o filho pode nascer com alterações cromossômicas, que levaria, por exemplo, à síndrome de Down. Além disso, há a dificuldade de engravidar naturalmente, uma vez que, a partir dos 35 anos, a mulher sofre de uma diminuição acentuada dos óvulos. Apesar disso, estudos recentes, feitos pela Universidade do Sul da Califórnia, mostram que mulheres que engravidam depois dos 40 anos apresentam menos risco de desenvolver câncer de endométrio. “É uma nova realidade”, comenta Elza Montoro.
          Se alguns parecem receosos, Selena e Blandina mostram-se o contrario. “Os preconceitos estão caindo e já é possível a mulher acreditar que possa vivenciar uma gravidez saudável mesmo após os 40”, conclui Selena.

Um comentário:

  1. Muito bom o seu texto, Marcela! Este é um assunto sério, que retrata uma nova realidade e traz uma esperança para as mulheres maduras que gostariam de engravidar mas temem isso. Parabéns!!!

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